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Em busca de soluções para fortalecer a indústria e inserir o país no mercado global



Propostas consistentes de renomados especialistas, acadêmicos e executivos sobre as perspectivas econômicas, aumento da produtividade e competitividade e estímulos à inovação e exportação marcaram o 3º Congresso Brasileiro da Indústria de Máquinas e Equipamentos, realizado pela ABIMAQ, com o tema O Futuro da Indústria no Brasil, na sede da entidade, no dia 18 de setembro.

No discurso de abertura do evento, o presidente do Conselho de Administração da ABIMAQ, João Carlos Marchesan, afirmou que o processo de desindustrialização do Brasil se reflete na redução da participação da indústria de transformação no PIB nacional, que em 1947, respondia por 12%, chegou a quase 20% em 2013, e que hoje se situa em 10%. “Após três anos de recessão, aprendemos muito e, apesar das dores, estamos fortalecidos e preparados. A retomada do crescimento virá com mais investimentos, especialmente em infraestrutura, para gerar mais empregos e aumento de renda. Não são os recursos que limitam as decisões, e sim as decisões que limitam os recursos. Precisamos de menos Brasília e mais Brasil!”.

Marchesan também destacou a perda gradual de competitividade dos produtos brasileiros no mercado interno e externo, causada principalmente pelos preços baixos e elevados custos de produção. “Somos um país com mais de 207 milhões de pessoas, com enorme potencial em diversas áreas. Nós não somos um ‘cachorro vira-lata’ e, portanto, não temos que ter qualquer complexo. Diante desse quadro, é nosso papel como entidade setorial exigir do governo medidas que fortaleçam os setores produtivos e, para tanto, levaremos aos presidenciáveis as sugestões e propostas que a indústria tem para estancar e reverter o atual e severo processo de desindustrialização. Precisamos de um projeto de país, de políticos estadistas que pensem na próxima geração – não na próxima eleição!”. 

Arnaldo Jardim, secretário de Agricultura e Abastecimento

“Inicialmente, quero ressaltar que, ao contrário daquilo que levou o país a uma situação de desequilíbrio estrutural, em São Paulo, nós optamos por uma linha de austeridade fiscal e vamos, pelo terceiro ano, ter superávit. Quanto ao futuro da indústria, tema deste congresso, se trata de uma pergunta, eu não tenho dúvida em responder que sim! No momento em que as reformas são fundamentais, o governo do Estado de São Paulo tem empenho total nisso e já instituiu um sistema de Previdência diferenciado, que reduziu a pressão que existia nessa área. O que me anima é aquilo que eu chamo de ‘sinais de vida’, que ocorre, por exemplo, com a parceria entre a Fatec e o setor de máquinas e equipamentos, como é o caso da Fatec Shunji Nishimura, em Pompeia, onde este ano começou a se ensinar a matéria Internet Big Data, ou seja, nós temos visto esses sinais se multiplicam por meio das parcerias que se constituem entre o setor público e as empresas que têm conseguido sobreviver e que garantem o contexto necessário para enfrentar os desafios do futuro. Reafirmo, então, nossa convicção de que, com empreendedores como os que temos aqui, que são ousados, inovadores e criativos, nós podemos acreditar no futuro. Por último, agrego uma frase: chega de gladiadores; é hora de construtores! É necessário estabelecer convergências que transcendam disputas políticas e nomes, e possam estabelecer consensos e dar a estabilidade necessária para dirigir o País”. 

PAINEL 1 | O DESAFIO DA PRODUTIVIDADE E DAS NOVAS TECNOLOGIAS

Marcos Lisboa, presidente do Insper
“A nossa produtividade está, há 40 anos, estagnada e declinante em relação a de outros países. Mas por que a geração de valor no Brasil não cresce como nos demais países? O governo não tem nada o que fazer com câmbio e juros; não há nenhuma política econômica que consiga alterar permanentemente o câmbio real ou os juros reais – a não ser que se queira mais inflação. O ajuste fiscal de longo prazo é a única maneira de jogar os juros reais para baixo e desvalorizar o câmbio. Na infraestrutura, precisamos mexer em sua regulação para estabelecer regras que estimulem investimentos de longo prazo. No que se refere à legislação trabalhista, é difícil achar um país que tenha uma legislação trabalhista mais complicada do que a nossa. Nós somos também um país que poupa pouco e, portanto, o custo do capital no Brasil é elevado. Mas daria para ter juros mais baixos, desde que todos paguem os mesmos juros de mercado. Com isso se reduziria a judicialização e muitos os problemas que ficam fora do chão de fábrica. O fato é que, ao invés de enfrentarmos os problemas na origem, nós procuramos compensá-los, mas isso só acaba gerando um Frankenstein institucional.”

Venilton Tadini, presidente executivo da Abdib
“Opaís tem de fazer opções. A primeira delas é definir se a indústria é ou não um importante vetor de crescimento para estimular o desenvolvimento econômico. A segunda questão relevante é o papel do Estado, que não é dado pelo seu tamanho, mas pela sua eficácia. Nesta questão do Estado, precisamos recuperar sua condição de sinalizador do caminho do crescimento. Nosso problema é, efetivamente, não termos uma estratégia definida de crescimento. O ajuste fiscal não é um fim em si mesmo, mas um meio de se atingir os objetivos que a sociedade deseja. Com nossa estrutura tributária, que é totalmente equivocada e incide sobre o produto final, na medida em que ocorre uma queda na indústria, ela amplifica a queda da receita tributária. Há, portando duas coisas importantes que precisam ser vistas. A primeira é se nós queremos ter uma indústria ou não? Eu já vi pessoas definindo estratégias de crescimento com base em outros segmentos, e que até deram certo em alguns países – como a Austrália ou o Chile. A segunda questão é o papel do Estado. Parece que, hoje, nós não temos Estado funcionando. Nós temos um deficit fiscal absurdo, um gasto de custeio de pessoal de mais de 20% do total das receitas, mas não temos planejamento, não temos definições de prioridades, nem uma inserção definida no comércio internacional. A indústria é importante porque dá dinamismo e permite que, quando se tem de fazer uma inserção internacional, ela ajuda a gerar exportação, sem depender dos ciclos que estamos vivendo agora”. 

Mario Bernardini, diretor de Competitividade da ABIMAQ
“No Brasil, há dois problemas básicos, de custo e de preço. O problema de custo está consubstanciado no Custo Brasil. No que se refere aos juros, não há justificativa para spreads de 20, 40 ou 200 pontos percentuais acima do custo de captação – isso é agiotagem e não tem nada que ver com macroeconomia! No caso dos impostos, não é a sua redução que resolve. Se fosse assim, a Dinamarca, Suécia e Alemanha não seriam competitivos. Não é o nível nem a derivada, é o fato de que há 6,2 pontos percentuais de impostos não recuperáveis incidindo nas cadeias de produção. Só até aí, são 13 pontos percentuais de diferença e, para resolver isso, é preciso fazer as reformas tributária e bancária. Nós precisamos também de uma reforma cambial, porque não se deve dar mandato ao Banco Central para fazer política cambial; dá-se ao governo e o BC é apenas executor. Se começarmos hoje a longa caminhada para eliminar o Custo Brasil, em 30 anos, esperamos tê-lo reduzido à metade. E supondo que diminua, isso significa que as indústrias brasileiras vão ser competitivas só daqui a 30 anos. O governo pode sim tomar medidas para criar um câmbio razoavelmente competitivo e juros razoavelmente mais adequados, mostrando que estamos caminhando no sentido de um ajuste e de arrumar a casa”. 

Harry Schmelzer Junior, presidente da WEG
“Eu não sou contra a agricultura nem contra a mineração. Só que não acredito que a agricultura e a mineração vão garantir a riqueza que um país como Brasil precisa. Se nós fomos tão bem-sucedidos na agricultura nos últimos anos e o Brasil está do jeito que está, isso comprova que, de fato, precisamos da indústria. É importante para uma economia rica participar do mercado internacional, mas isso não significa simplesmente abrir a porteira. É necessário fazer com que as indústrias brasileiras tenham condições de vender seus produtos para o mundo inteiro. Há muitas indústrias internacionais que são competitivas aqui, mas não conseguem competir nem mesmo com empresas parceiras que eles têm lá fora. A questão está em como se resolver isso”. 


PALESTRA | A UM ANO DA ELEIÇÃO DE 2018: CONJUNTURA E PERSPECTIVAS

Antonio Lavareda, Cientista Político

Antonio Lavareda começou sua palestra apresentando o paradoxo Michel Temer, que mostra a contradição entre os resultados obtidos pelo atual presidente e a sua baixa popularidade. “Desde a sua posse até o atual momento, a avaliação do presidente, que já era baixa, ficou baixíssima. Um governo que tem uma avaliação desse teor, em qualquer país do mundo, é um governo limitado a patinar, a ser absolutamente capturado pela sua base de apoio, pelos setores que lhe dão algum conforto nas refregas parlamentares; é um governo entregue a uma agenda medíocre”. 
Lavareda analisou também as eleições passadas como premissas para a eleição presidencial de 2018, abordando tópicos como o número de candidatos, a distribuição dos votos no segundo turno em função dos apoios recebidos e o grau de fragmentação desses votos. “Esta questão é importante: quantos candidatos competitivos o Brasil vai ter na eleição de 2018? Nas pesquisas mais recentes, poucos candidatos preenchem essa condição: Lula, Jair Bolsonaro, Marina Silva e João Doria”. Lavareda ressalva, porém, que a candidatura de Lula está praticamente descartada, por conta dos processos que o ex-presidente responde no âmbito da Lava Jato. “Em um cenário sem Lula, o cenário de possíveis apoios torna-se ainda mais impreciso e fragmentado”. 
Outra variável interveniente nas próximas eleições e sobre a qual não se pode fazer nenhum prognóstico é, segundo Lavareda, a Lava Jato. “O que vai ocorrer com a Lava Jato? Qual é o tipo de participação que o Ministério Público vai eventualmente na eleição de 2018? Sobre isso nós não podemos fazer nenhuma conjectura com um mínimo de razoabilidade neste momento”, concluiu. 

PAINEL 2 | É POSSIVEL UMA INSERÇÃO COMPETITIVA DA INDÚSTRIA BRASILEIRA NO COMÉRCIO GLOBAL?

Roberto Jaguaribe, presidente da Apex- Brasil
“As agruras da exportação são, na verdade, as agruras da produção. Não adianta pensar que vai se fazer magia com promoção comercial na ponta. Então, a questão que se debate é a competitividade estrutural. Mas como vamos nos abrir se os nossos elementos estruturais são amplamente não competitivos? Eu acho que nós temos que trabalhar com a convicção de que, não apenas a inserção competitiva é possível, mas que ela é estritamente necessária. Não se pode dizer que um país não possa sobreviver sendo competitivo em outros setores além do industrial – mas não um país com a dimensão do Brasil. Outro elemento que precisamos ter presente é o panorama da inserção comercial por meio dos acordos que estão sendo negociados. É completamente ilusório achar que o Brasil tem menos comércio internacional por conta da falta de acordos internacionais. A China chegou à posição de maior exportador do mundo sem ter nenhum acordo comercial com os principais mercados aos quais se destinavam seus produtos. A Apex-Brasil é parceira da ABIMAQ há 17 anos. Em nossa agência, temos o programa Brazil Machinery Solutions, cuja manutenção é fundamental, mas que tem servido apenas para dar alguma sustentabilidade. Então, estamos fazendo mudanças no enfoque da Apex-Brasil, porque chegamos à conclusão de que a promoção comercial não vai alterar a capacidade de inserção de certos setores industriais”.

Gabriel Galipolo, Mestre em Economia Política da PUC/SP
“Em 1980, o Brasil exportava 21 bilhões de dólares e representava 1% do comércio mundial. Naquele mesmo ano, a Coreia do Sul e a China exportava 16 bilhões de dólares cada uma. Hoje, o Brasil exporta 220 bilhões, mas continua com o mesmo 1% do comércio mundial que tinha naquela época. Nesse mesmo período, a Coreia do Sul passou a exportar para mais de 573 bilhões e a China, 2,3 trilhões de dólares – ou seja, mais do que PIB do Brasil. Sobre as mudanças que ocorreram, há uma frase que diz: antes, os países tinham empresas; hoje, as empresas têm países. De fato, hoje, as indústrias não estão localizadas numa nação; elas se deslocam fazendo uma arbitragem geográfica, de acordo com a sua conveniência. E é por isso que as políticas de câmbio e juros de cada país precisam se adaptar, para atrair o tipo de capital que mais lhe interessa”.

Ricardo Sennes – sócio-diretor da Prospectiva 
Negócios Internacionais & Políticas Públicas
“Há três pontos que precisam ser considerados sobre o tema deste painel. O primeiro é pensar em inserção internacional da mesma maneira que já se pensou no passado é um equívoco. Precisamos pensar que estamos passando por um processo de revolução tecnológica acelerada e identificar onde está a agregação de valor hoje no processo produtivo, tanto na indústria quanto na agricultura. Por que o Brasil, sendo o maior produtor de soja, junto com a Argentina, a venda no mercado internacional se dá por meio  de traders, e por que o mercado de futuros de commodities está em Chicago? Ou seja, nós fazemos o trabalho pesado, mas quem ganha mais são as duas pontas da cadeia. O segundo ponto é que o Brasil mudou muito nos últimos 30 anos de democracia e virou um grande país de classe média baixa nas periferias urbanas. Os salários subiram, assim como as regras ambientais e técnicas. O último ponto a ser considerado é que, do ponto de vista do mercado internacional, precisamos ver onde estão as tendências que têm a ver com a indústria 4.0, para que o Brasil possa se inserir de forma competitiva no mercado global”.

Daniel Godinho, diretor da WEG
“Para chegar onde chegou e para saber o que precisa agregar, olhando para o futuro, a WEG tem se apoiado em duas grandes estratégias: a internacionalização e a tecnologia e inovação. O resultado é que, hoje, a empresa tem fábricas em 12 países, filiais em outros 21, distribuidores em mais 85 e opera num total de 135 mercados, o que faz com 56% do seu faturamento venha do exterior. No que se refere à tecnologia e inovação, 56% da receita da WEG se originam em produtos lançados nos últimos cinco anos, e um total de 1290 colaboradores estão exclusivamente dedicados a P&D. Para que a WEG continue representando o Brasil no mercado global – e mais empresas possam fazê-lo –, existem dois pontos fundamentais a ser considerados. Primeiro, estabelece uma agenda previsível, com o máximo de estabilidade possível, mas que não simplifique o debate das questões envolvidas em busca de soluções. O segundo ponto é que precisamos de políticas públicas de apoio à inovação, tecnologia e pesquisa”.  


Luiz Carlos Hauly, deputado federal
“De 1930 a 1980, o PIB do Brasil atingiu um crescimento médio anual de 6,7%, mas nos últimos 37 anos, a partir de 1980, esse crescimento médio caiu para 2,2%, ou seja, 4,1% a menos. Quem mais perdeu foram as indústrias brasileiras, especialmente as de máquinas e equipamentos, assim como os consumidores e o governo federal, estados e municípios, porque o nosso sistema tributário é anárquico e caótico, um verdadeiro manicômio tributário. Isso faz toda a diferença na  hora de formar o preço das mercadorias ou dos bens e serviços. Nosso sistema tributário, com todas as iniquidades que tem – sonegação de 23%, renúncia fiscal de 500 bilhões por ano, dois trilhões de contencioso administrativo e judicial, o custo da burocracia, que chega a 2,6% do preço do produto final e mais a dívida ativa de 3 trilhões – tudo isso destruiu a economia brasileira. Nós temos que eliminar o ISS, o ICMS. O IPI, o PIS, o Cofins, a Cide, CSR, o Pasep e o Salário Educação, e criar um imposto de valor agregado, um imposto seletivo e o imposto de renda, que já existe, manter a contribuição previdenciária e os impostos patrimoniais e de importação e exportação. Esse é um resumo do nosso projeto: vamos zerar todos os impostos sobre máquinas e equipamentos e bens do ativo fixo, e vamos acabar com a guerra fiscal, vamos diminuir 80% da burocracia, da renúncia fiscal e da sonegação, e 90% da elisão, que é a postergação do pagamento, porque nosso sistema prevê pagamento eletrônico online. Com tudo isso, temos certeza de que o Brasil vai voltar a crescer como cresceu entre as décadas de 1930 e 1960”.

PAINEL 3 | A INDÚSTRIA BRASILEIRA TEM FUTURO COM O ATUAL SISTEMA TRIBUTÁRIO?

Bernard Appy, diretor do Centro de Cidadania Fiscal (CCIF)
“Respondendo à pergunta do painel, a resposta é não! Nosso sistema tributário destrói a produtividade e gera um monte de distorções. Um bom sistema tributário tem de ser simples, neutro, transparente e isonômico. O sistema brasileiro não tem nenhuma dessas características e, ainda por cima, tem um grau de ligitiosidade brutal. Nossos problemas estão concentrados na tributação de bens e serviços, que não existiriam se o Brasil tributasse bens e serviços com o padrão adotado na grande maioria dos países do mundo, que é o Imposto sobre o Valor Agregado (IVA), um imposto sobre o consumo que é cobrado ao longo da cadeia de produção e comercialização. O que nós estamos propondo é a substituição de cinco impostos – PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS – por um imposto do tipo IVA, que estamos chamando de Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), complementado por um imposto seletivo, que incidiria sobre bens cujo consumo queremos desestimular – não incidiria, por exemplo, sobre insumos como eletricidade, combustíveis e telecomunicações –, e que seria aplicado num período de transição de dez anos. A arrecadação seria centralizada, ou seja, seria um único imposto, cuja receita seria distribuída entre a União, estados e municípios. A proposta está descrita em detalhes na página www.ccif.com.br”. 

Fabio Silveira, sócio-diretor da Macrosector Consultores
“Seria ótimo se nós pudéssemos fazer uma reforma tributária rápida, mas, infelizmente, o bom senso nos diz que isso não vai acontecer. Se há uma forma de iniciarmos a recuperação econômica, ela teria de ser iniciada, em boa medida, pelo estímulo ao setor externo, mediante a adoção do Reintegra de forma efetiva. Não só porque é algo mais rápido, porque pode ser feito por Medida Provisória, mas também porque os impactos que isso proporcionaria à economia seriam muito grandes. Num estudo que fizemos, concluímos que uma eventual majoração do Reintegra de 2% para 5%, mais um aumento de 10% nas exportações, permitiriam criar 800 mil postos de trabalho no país, apenas com o ressarcimento desse valor que, hoje, o Estado retém por má gestão dos tributos que ele mesmo cria. Mas essa forma de desembolso por parte do Estado não geraria prejuízo nas contas públicas? Nós fizemos as contas e chegamos à conclusão de que, apesar de ser feito um ressarcimento do governo ao setor privado em torno de R$ 9 bilhões, ainda assim os impactos econômicos permitiriam à receita pública recuperar esse valor e ter um ganho adicional da ordem de R$ 2 bilhões”. 

Odair Renosto, presidente da Caterpillar
“Uma publicação do Banco Mundial, Doing Business Report, elaborou um rankig de 190 países, e o Brasil ficou na posição 181 no indicador ‘pagamento de impostos’, que mede a complexidade do sistema tributário na aplicação das alíquotas dos impostos, o que comprova que nosso sistema é muito ruim. Um dos grandes problemas do nosso sistema é que embute riscos por conta das diferentes interpretações – uma da empresa, outra do fiscal –, bem como a geração de créditos de ICMS que não têm como ser aproveitados, a substituição tributária, com diferentes regras entre os estados, e a guerra fiscal. O que ocorre é que, hoje, devido a essa carga e complexidade tributária, a Caterpillar Brasil não consegue ser competitiva nem mesmo com as demais empresas do mesmo grupo, sediadas em outros países”.

Germano Rigotto, diretor de Ação Política da ABIMAQ
“Apesar dos acertos, o grande erro do governo Fernando Henrique foi não ter acreditado na necessidade da reforma tributária. Quando você fala em reforma tributária, todos concordam, mas quando você apresenta uma proposta, surgem os movimentos corporativistas daqueles que não querem perder o poder de fiscalizar e de quem ganha muito com o esse sistema tributário. Acho muito difícil que se possa aprovar uma reforma de proposta tributária no momento em que estamos vivendo, com um Congresso Nacional à deriva, não tendo condições de dar resposta nem à reforma política e à reforma previdenciária. O fato é que, neste período de transição do governo Temer, não há a decisão de ser fazer a reforma tributária! As entidades como ABIMAQ precisam defender propostas como as que têm sido apresentadas, com pequenas modificações que possam ocorrer, e fazer que os candidatos à presidência se comprometam com elas”. 

PAINEL 4 | MODELANDO O FUTURO DA PRODUÇÃO NO BRASIL

Mark Essle, partner da ATKearney do Brasil
“Por um lado, nossa base instalada está sob ameaça, mas, por outro, existe uma oportunidade para quem tem energia e vontade de investir o tempo e os recursos necessários para se transformar: a 4ª Revolução Industrial ou Manufatura 4.0. Uma boa parte dos executivos de empresas admitem que essa mudança já começou e está em pleno andamento e que as modificações tecnológicas já transformaram o mundo. Na manufatura, estão mudando a produção em escala para a produção em lote mínimos, permitindo implantar minifábricas, com produção local para atender ao consumo local. Conceitos como Internet das Coisas, Realidade Aumentada, Robótica Avançada, integrada com o ser humano e impressão 3D, que permite a produção em lotes muito pequenos, são apenas alguns exemplos. Essas mudanças podem permitir uma redução de até 40% do custo fabril. No Brasil, nós estamos nos mexendo; há inclusive um grupo interministerial tratando do assunto. Vale lembrar que, na Alemanha, a Manufatura 4.0 é tema de campanha política e eu espero que isso ocorra também no Brasil. Se o Brasil não seguir essa tendência, corre o risco de que ocorra um processo de desmonte de suas cadeias produtivas – e sem a possibilidade de um processo de remonte”.

Marcos Vinicius de Souza, secretário de Inovação e Novos Negócios do MDIC
“O futuro da produção no Brasil envolve cinco grandes visões. A primeira trata da escolha das tecnologias que realmente teriam função nessa nova tendência. A segunda tem a ver com os setores onde o Brasil teria competências para se desenvolver. A terceira envolve os recursos humanos, para determinar qual seria o perfil do novo trabalhador. A quarta está focada na infraestrutura, já que não adianta fazer tudo isso, se não houver uma infraestrutura adequada. Por último, precisamos aprimorar a regulação, selecionando as legislações que precisam ser mudadas para viabilizar esse avanço. No caso do Brasil, precisamos desenvolver fórmulas para adaptar as empresas que já existem a essa nova situação, de modo a aumentar a produtividade no curto prazo. Em alguns casos, isso é possível somente com a adoção de mudanças nos processos produtivos, como, por exemplo, a colocação de sensores e softwares em máquinas que já estão sendo operadas. Acreditamos que isso traria retorno muito mais rápido do que necessariamente adotar tecnologias muito avançadas, que não sabemos sequer quando vão estar disponíveis no mercado”.

Eduardo Peixoto, executivo-chefe de Negócios do CESAR
No CESAR (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), temos trabalhado com a Internet das Coisas. Cada vez mais, a tecnologia incorporada aos produtos permitirá que eles funcionem com certo grau de cognição, isto é, que eles tomem decisões por nós. Com a conectividade, eles passam a contar também com a capacidade de processamento de uma cloud. No novo cenário, todos os produtos passarão a ser híbridos, ou seja, materiais que eram mecânicos e isolados passarão a ser inteligentes e conectados. Isso permitirá criar transformar as empresas de manufatura em plataformas de serviços. A questão neste momento é: quais são as empresas que estão preparadas para essa mudança?”. 

Fabio Tagnin, diretor de IoT para a América Latina da Intel
“A tecnologia que temos produzido para a Indústria 4.0 ou Internet das Coisas (IoT) permite conectar o que não está conectado, ou seja, os dispositivos que têm capacidade de gerar dados. Hoje, a maioria das empresas – 80% ou mais – está nessa fase de conectar os dispositivos. A próxima fase é tornar os dispositivos inteligentes, ter algum tipo mecanismo que, dado o comportamento e dada uma certa situação ambiental, tomem algumas decisões. E a terceira é torna-los totalmente autônomos. O mundo vai ser definido por softwares, ou seja, tudo terá um pequeno programa instalado num dispositivo. Outro ponto importante é a substituição da mão de obra, ou seja, a mudança no perfil do trabalhador. Há, portanto, inúmeros aspectos que precisam ser avaliados no processo de adaptação das empresas à IoT, e nós não podemos ficar parados”. 

PALESTRA MAGNA

Carlos da Costa, diretor de Planejamento e Pesquisa do BNDES

Devido a um imprevisto, o presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro, não pôde comparecer ao evento para proferir a Palestra Magna, tendo sido substituído por Carlos da Costa. “Eu tenho dito que há dois Brasis: há um Brasil que deixou de acreditar no Brasil e outro que continua acreditando que o Brasil tem um papel importante no cenário internacional. O BNDES é parte deste Brasil que continua sonhando e acreditando que vamos conseguir crescer, ser produtivo e ocupar um lugar de liderança internacional. O Brasil precisa resgatar as suas ambições”, afirmou Costa. “Mas por que não se investe no Brasil? Primeiro, porque o cenário está muito difícil. É incerto investir num país e tomar decisões de investimento que envolvem risco cujas perspectivas de crescimento são limitadas, as  perspectivas de equilíbrio fiscal do governo são arriscadas e em que nós não sabemos exatamente o que vai acontecer daqui a dois anos”. 

Segundo o diretor do BNDES, existem dificuldades institucionais muito graves no Brasil, que fazem com que os gastos em P&D não se revertam, tais como a falta crédito, de marco regulatório e de estabilidade política. “O Brasil tem recursos e gasta uma porcentagem do PIB relativamente alta em educação e P&D, mas essas deficiências fazem com que esses gastos não sejam canalizados para a inovação. Para sustentar uma mudança nesse cenário, o BNDES pretende priorizar alguns aspectos”, explicou Carlos da Costa. “Primeiro, pretende continuar financiando a infraestrutura, para que os gastos em P&D, as oportunidades de mercado e o talento que nós temos se revertam em inovação e crescimento. Em segundo lugar, nós precisamos ter micro e pequenas empresas pujantes no Brasil. Precisamos evitar que aquelas que são saudáveis, mas estão com a ‘corda no pescoço’ por falta de capital de giro, tenham que fechar suas portas mesmo tendo resultados operacionais positivos. Outro tópico importante é a interiorização da indústria em geral, porque nosso país tem muitas oportunidades no interior. No Brasil, existem cidades pequenas e médias com grandes oportunidades para a instalação de empresas, com boas universidade e centros de conhecimento. Inovação é uma agenda que nós precisamos reforçar de todas as suas formas, como a criação de aplicativos que aumentem a produtividade de máquinas equipamentos. O BNDES vai continuar e reforçar seu apoio ao desenvolvimento de inovações, sejam elas tangíveis ou intangíveis. Por último, devemos estimular a formação de capital humano. Para que as empresas invistam em máquinas equipamentos de alto nível, que permitam aumentar a sua produtividade e competitividade, possam contar com gente que saiba operá-las”. 

PREMISSAS E PROPOSTAS

“Os custos altos decorrem da alta carga tributária, complexa e burocrática, juros elevados, tanto para o investimento quanto para a produção, crédito escasso, infraestrutura deficiente, excesso de judicialização e insegurança jurídica, que acarretam altos custos de transação”.

“É nosso papel como entidade setorial exigir do governo medidas que fortaleçam os setores produtivos e, para tanto, levaremos aos presidenciáveis as sugestões e propostas que a indústria tem para estancar e reverter o atual e severo processo de desindustrialização”.
» João Marchesan

“Precisamos mexer na regulação da infraestrutura para estabelecer regras que estimulem investimentos de longo prazo. É difícil achar um país que tenha uma legislação trabalhista mais complicada do que a nossa. Nós somos um país que poupa pouco e, portanto, o custo do capital no Brasil é elevado. Mas daria para ter juros de mercado mais baixos, desde que todos paguem os mesmos juros de mercado”. 
» Marcos Lisboa

“Entre juros altos e impostos não recuperáveis, são 13 pontos percentuais de diferença no custo de produção. Para resolver isso, é preciso fazer as reformas tributária e bancária. Se começarmos hoje a longa caminhada para eliminar o Custo Brasil, em 30 anos, esperamos tê-lo reduzido à metade. Precisamos, então, cuidar do preço e preço é sinônimo de câmbio. O governo pode tomar medidas para criar um câmbio razoavelmente competitivo e juros razoavelmente mais adequados”.
» Mario Bernardini

 “Não acredito que a agricultura e a mineração vão garantir a riqueza que o Brasil precisa. Porque, se nós fomos tão bem-sucedidos na agricultura nos últimos anos e o Brasil está do jeito que está, isso comprova que, de fato, precisamos da indústria”.
» Harry Schmelzer Junior

“Nós temos que trabalhar com a convicção de que a inserção competitiva não é só possível, como estritamente necessária. Não se pode dizer que um país não possa sobreviver sendo competitivo em outros setores além do industrial – mas não um país com a dimensão do Brasil”.
» Roberto Jaguaribe

“Há uma frase que diz: antes, os países tinham empresas; hoje, as empresas têm países. De fato, hoje, as indústrias não estão localizadas numa nação; elas se deslocam fazendo uma arbitragem geográfica, de acordo com a sua conveniência”.
» Gabriel Galipolo

“Do ponto de vista do mercado internacional, precisamos ver onde estão as tendências que têm a ver com a Indústria 4.0, para que o Brasil possa se inserir”.
» Ricardo Sennes

“Nós estamos propondo é a substituição de cinco impostos – PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS – por um imposto do tipo IVA, que estamos chamando de Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), complementado por um imposto seletivo, que incidiria sobre bens cujo consumo queremos desestimular, e estamos propondo fazer isso num período de transição de 
dez anos”.
» Bernard Appy

“Se há uma forma de iniciarmos a recuperação econômica, ela teria de ser iniciada, em boa medida, pelo estímulo ao setor externo, mediante a adoção do Reintegra de forma efetiva”.
» Fabio Silveira

 “Devido à carga e complexidade tributária do Brasil, não conseguimos ser competitivos nem mesmo com as demais empresas do nosso mesmo grupo, sediadas em outros países”.
» Odair Renosto

“Conceitos como Internet das Coisas, Realidade Aumentada, Robótica Avançada, integrada com o ser humano e impressão 3D, que permite a produção em lotes muito pequenos, são apenas alguns exemplos de mudanças que permitem uma redução de até 40% do custo fabril”.
» Mark Essle

“Precisamos desenvolver fórmulas para adaptar as empresas que já existem a essa nova situação, de modo a aumentar a produtividade no curto prazo. Em alguns casos, isso é possível somente com a adoção de mudanças nos processos produtivos, como, por exemplo, a colocação de sensores e softwares em máquinas que já estão sendo operadas”.
» Marcos Vinicius de Souza

“No novo cenário, todos os produtos passarão a ser híbridos: produtos que eram mecânicos e isolados passarão a ser inteligentes e conectados. Isso permitirá criar transformar as empresas de manufatura em plataformas de serviços”.
» Eduardo Peixoto

“A Intel já está trabalhando na tecnologia 5G, mas, no Brasil, muitas empresas ainda estão trabalhando com 2G ou 3G. Há, portanto, inúmeros aspectos que precisam ser avaliados no processo de adaptação das empresas à IoT, e nós não podemos ficar parados”..
» Fabio Tagnin





Número: 215
Março/2011

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No dia 14 setembro, a presidência da ABIMAQ realizou reunião com os presidentes das câmaras setoriais da entidade para debater as negociações para o Acordo de Livre Comércio entre MERCOSUL e a União Europeia. Leia mais...

Por meio do Sistema Geral de Preferências dos EUA, os exportadores brasileiros poderão contar com uma redução da tarifa de importação. Leia mais...

Com o objetivo de facilitar a aquisição de bens e insumos, com crédito rotativo pré-aprovado para a região do nordeste de produtos cadastrados, o Banco do Nordeste dispõe do Cartão BNB. Leia mais...

O crescimento da receita liquida do setor de bens de capital, no mês de agosto, foi puxado pelas exportações. Leia mais...

A economia brasileira está tentando desvencilhar-se da crise política. Leia mais...

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