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A hora da educação profissional



Enredado num emaranhado de desafios que o tempo tem feito agravar, lá se vão 40 anos de crescimento econômico abaixo da taxa média de expansão da economia mundial, e já tarda no país a tomada de decisão sobre questões consensuais na sociedade capazes de promover o necessário desenvolvimento. O imperativo da educação de qualidade é um desses consensos, em particular o ensino técnico profissional - uma área essencial para o progresso, mas subestimada nas discussões.

Com a quinta maior população e território do mundo - e força de trabalho de mais de 100 milhões de habitantes -, o fato é que uma economia de US$ 1,7 trilhão, 12ª no ranking global, já tendo sido a 7ª, é pequena tanto em relação ao nosso potencial empreendedor quanto às oportunidades não realizadas de atividade empresarial e geração de bons empregos.

As reformas para remover obstáculos à expansão da economia, como a tributária e a modernização da governança pública, são há muito tempo conhecidas. Mas há algo mais, menos falado, que também merece atenção, pois pode, a um só tempo, facilitar o acesso dos jovens ao trabalho e ao empreendedorismo, além de qualificar e requalificar os trabalhadores em geral com as aptidões requeridas pelas novas atividades.

Trata-se da educação profissional tecnológica (EPT), que já conheceu tempos melhores no Brasil. A reforma do ensino médio, recentemente aprovada e em fase de implantação nacional, favorece a reavaliação desse valioso serviço, especialmente para a inclusão dos jovens e a promoção da produtividade sistêmica da economia, com a incorporação da formação técnica ao currículo convencional da educação básica regular. Todas as escolas de ensino médio do Brasil, assim, poderão ofertar EPT como parte de seu currículo.

O novo ensino médio é a grande oportunidade para a valorização da formação profissional dos jovens e, portanto, para o desenvolvimento inclusivo do país, que não podemos perder. Os resultados são significativos nas áreas em que o ensino profissionalizante merece atenção.

Apenas 8% dos estudantes brasileiros de nível superior estão matriculados em cursos na área de tecnologia, contra 32% na média dos países associados à OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que estuda e recomenda a aplicação de boas práticas de governança pública e privada). No caso da EPT de nível médio, os nossos cursos técnicos recebem 11% dos jovens, enquanto os países da OCDE matriculam, em média, 42%.

Ao contrário do senso comum, muito influenciado pelo modelo educacional dos EUA, é a educação técnica profissional, não a formação superior, a base vocacional dos países altamente bem-sucedidos na Europa e na Ásia, tais como Alemanha, Suíça, Holanda, Japão, Coreia do Sul e China. Neles, a EPT, com estágio remunerado pelas empresas e orientação vocacional concomitante ao ensino médio regular, cria forte sinergia entre a escola e o setor produtivo.

Tais benefícios se tornam cruciais nestes tempos em que a pandemia tem feito acelerar o ciclo de inovações tecnológicas, que começa a ameaçar atividades tradicionais e seus empregos correspondentes, se a população não estiver habilitada a migrar para os novos setores.

O assunto é grave e foi um dos temas de fundo do último Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos, na Suíça, reunindo a cúpula das maiores empresas globais, governantes das grandes potências e pensadores. “Metade de todos os empregados no mundo precisará de requalificação até por volta de 2025, e esse número não inclui os desempregados”, diz o estudo, que teve colaboração da consultoria PwC, divulgado no fórum realizado virtualmente neste ano por causa da pandemia.

O foco, diz o estudo, é a “percepção de que as economias não estão mais entregando o que as pessoas precisam”. A recomendação é uma “reforma sistêmica”, que priorize a formação e aquisição das habilidades que as pessoas precisam para “participar plenamente do local de trabalho do futuro”. Alguns países estão mais preparados que outros para essa transição, o que poderia incluir o Brasil, se o ensino médio contemplasse a EPT e o Sistema S se organizasse como centro irradiador de diretrizes e apoio a essa transformação.

Nos países em que a população empregada ou em formação está mais preparada para as necessidades de formação profissional que se avistam, a EPT é parte decisiva do ensino e não coadjuvante. Certamente por isso as taxas de desemprego na Alemanha, Suíça, Áustria, Holanda e Dinamarca são as mais baixas entre jovens e adultos em toda a Europa.

Em nenhum deles a indústria é considerada descartável, assim como nos países altamente industrializados da Ásia, como Coreia do Sul, Cingapura, Japão e Taiwan, em que os efeitos da pandemia têm sido menos graves e o desemprego, residual.

Na Alemanha, 42% da população em idade escolar faz o ensino técnico e 5% da força de trabalho é de aprendizes em profissões reconhecidas de formação profissionalizante, segundo estudo de Wilson Risolia, secretário-geral da Fundação Roberto Marinho e ex-secretário de Educação do Rio de Janeiro. Ao todo, 20% das empresas têm vagas de aprendizes, investindo €18 mil por ano, em média, por aluno. E 70% do aprendizado ocorre nas empresas.

Na Áustria, 80% dos alunos que concluem o ensino fundamental optam pela EPT. Há dois modelos: o ensino médio em paralelo à EPT em escola específica e outro, mais prático, em que o aluno é treinado e formado por empresas parceiras. A EPT tem reconhecimento social, o que não acontece no Brasil, e apenas 14% da população tem diploma de educação superior.

A Suíça é outro caso em que a EPT é dominante: dois terços dos jovens optam por cursos vocacionais; 41% da população possui diploma técnico; 30% das empresas oferecem programas de estágios; 60% dos custos de formação são pagos pelo setor privado, entre treinamento e remuneração. Os alunos passam um a dois dias na escola técnica e três a quatro aprendendo e trabalhando na empresa parceira.

Não é por acaso, portanto, que tais países possuem alta qualidade de vida e conseguem enfrentar com sucesso a concorrência dos produtos baratos importados da Ásia, são exportadores de bens industriais para o mercado chinês e sua força de trabalho corre menos riscos vis-à-vis as transformações da tecnologia.

Todos estão bem situados no Índice de Prontidão da Automação (Automation Readiness Index), que monitora a adequação em 25 países, incluindo o Brasil, às rupturas devidas às inovações sobre o mercado de trabalho. Coreia do Sul e Alemanha lideram a lista, com cerca de 90 pontos, contra média geral de 62,1. Brasil aparece na 19ª posição, com 46 pontos.

A educação técnica é responsável por boa parte da resiliência tanto da indústria quanto do bemestar da parte da Europa e da Ásia menos exposta às ameaças tecnológicas ao emprego, e à EPT se atribui a garantia para uma transição mais suave. Enquanto isso, no Brasil, 65% das crianças que entram hoje no ensino fundamental deverão trabalhar em ocupações ainda não existentes e não estão sendo preparadas para se adaptar às demandas futuras do mundo do trabalho.

Já convivemos com mais essa tragédia, entre tantas que nos afligem, por não termos nos preparado a tempo. Suas sequelas contribuem para enfraquecer a economia, sobretudo a indústria manufatureira, virtualmente excluída das ondas de inovação que impulsionam o mundo desde os anos 1980.

O reflexo está no desemprego estrutural; na multidão de informais habilitados a receber o auxílio emergencial no ano passado, mais de 65 milhões, surpreendendo o governo; na desesperança que acomete os jovens (com o desemprego na faixa de 18 a 24 anos chegando a quase 30%, contra 14% na média geral, segundo os dados da PNAD).

O ponto de reflexão talvez seja o de que o Brasil nunca se prepara devidamente e em tempo para enfrentar os problemas anunciados. Não poucos estudos associam o desenvolvimento à educação. James Heckman, professor da Universidade Stanford, foi distinguido com o Nobel de Economia em 2000 pelos seus estudos mostrando que quanto maior e mais inclusiva a educação, maior a renda per capita de uma nação.

No Brasil, 21,3 milhões de jovens têm de 18 a 24 anos. Destes, cerca de 4,5 milhões tentarão seguir para a universidade e 1,8 milhão, para algum curso técnico. Considerando que muitos dos que cursam a EPT pretendem seguir depois para algum curso superior, haverá mais de 15 milhões de jovens (incluindo os que interromperam a formação) para os quais o país não tem nada a propor como continuidade da formação profissional.

Não tem o que propor, mas poderia ter com pequenos arranjos no currículo do ensino médio e o engajamento do Sistema S reformatado como um articulador mais eficaz das demandas do setor privado por profissionais qualificados para as novas profissões, atuando em parceria com a educação pública.

Os benefícios certamente excedem eventuais ônus, conforme demonstra a experiência internacional. A todos os fatores derivados dos avanços tecnológicos substituidores de mão de obra, adicionam-se também as consequências da globalização, das mudanças climáticas e do viés demográfico, em que o envelhecimento da população passa a requerer mais atenção de saúde e atendimento profissional especializado, inclusive “home care”, ainda sem previsão nos currículos tradicionais.

É um modo novo, que cria, como alerta o estudo do Fórum Mundial e da PwC, “um problema social urgente: como habilitar as pessoas com as aptidões necessárias para participar da economia, agora e no futuro, seja ele qual for”. A resposta imediata é a qualificação e requalificação dos trabalhadores por meio de currículos técnicos flexíveis, atualizados e alinhados às demandas do mercado.

Em linhas gerais, o fortalecimento da EPT envolve planejamento de médio e longo prazo, visando a alinhar currículos às demandas da evolução das inovações; a oferta de ensino técnico preferencialmente em uma única instituição de ensino, com estágios práticos obrigatórios e parcerias com o setor privado para programas de estágios. E caberia cogitar a flexibilização dos requisitos de docência para atrair especialistas de áreas técnicas e profissionais qualificados dispostos a repassar o conhecimento adquirido.

O fio condutor de tais objetivos é a janela de oportunidade do novo ensino médio para promover e fortalecer o ensino técnico. Não podemos desperdiçar este momento histórico. 

* Horácio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski são empresários | Fonte: Valor Econômico.



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Número: 252
Março/2021

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